Marca SóBahêa

Marca SóBahêa

quinta-feira, 7 de julho de 2016

1982 a 2014, 32 anos de histórias

Eu poderia até escrever um post sobre este momento de crise que passa o Bahia, mas seria só mais um para bater e criticar Marcelo Santana e sua turma, acho melhor esperar sair a lista oficial de dispensados e contratados porque a discussão fica menos no achismo e mais concreta. De antemão, acho que a lista preliminar de dispensa divulgada tem mais o intuito de agradar a torcida do que de resolver o problema, sendo bem sincero, acho que tem atleta pagando por crime alheio, o que é muito ruim para o futuro da equipe. 

Feito este registro, vou aproveitar o momento para aprofundar uma discussão sobre a seleção brasileira que venho tendo com os colegas do baba aqui em BSB. Para alguns, boas são as de 94 e 2002 porque foram campeãs; para outros, nos quais me incluo, boa foi a de 82, porque jogou um belo futebol e marcou época. Nem vou entrar na discussão se Dunga é mais jogador do que Falcão, apenas por ter um título mundial, pois, apesar de respeitar Dunga e achar que ele não era o brucutu vendido pela imprensa como o símbolo da fracassada seleção da copa de 90, prefiro o estilo de jogo de Falcão, tem mais a ver com o futebol que aprendi a gostar. Farei uma breve reflexão sobre as seleções de 82 a 2014.


82 - o time treinado por Telê tinha como ponto forte o meio campo formado pelos monstros Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; além deles contava com mais dois craques nas laterais, Leandro e Júnior. Os outros 5 jogadores eram bons, acima da média, mas nada de excepcional. É preciso dizer que o esquema adotado 4-4-2 era uma passagem de era no futebol brasileiro acostumado ao 4-3-3, por isto Telê era muito cobrado, e Jô Soares tinha um personagem com o famoso bordão "bota ponta Telê", isto porque o Brasil costumava jogar com Paulo Isidoro, meia do Galo, pela direita ao invés de Nilton Batata, ponta do Peixe; pela esquerda revezavam Éder e Paulo Sérgio, ponta do São Paulo. Nem preciso dizer que Telê não atendeu o pedido, pois sacou PI, mas colocou Falcão.

Destaco que antes da Copa, Careca se machucou e Chulapa assumiu a condição de titular, o que deu uma queda na qualidade técnica do ataque, com todo respeito ao exímio goleador do Peixe e São Paulo. 

Até hoje, a seleção é criticada por ser frouxa na marcação, entendo ser uma crítica correta, mas injusta. Na minha opinião, muito se diz isto porque nossos volantes não eram brucutus e saíam muito para o jogo. No vídeo abaixo, podemos ver que vários dos nossos gols nasceram de roubada de bola na defesa ou no meio, e que a qualidade de passe e a inteligência ao se deslocar superaram a falta de velocidade dos nossos atletas, assim nosso contrataque era mortal, simples assim. Como exemplos, vejam os gols contra a Argentina (2º e 3º). No mais, vejam o que hoje em dia se chama de volante moderno em ação.
 


Uma pena que erros individuais do nosso lado, e uma atuação irretocável de Dino Zoff nos mandaram de volta para casa.

86 - Tiraram Telê e chamaram Parreira, mas em 85, Telê estava de volta para as eliminatórias. Na época da Copa, a torcida estava com o pé atrás, pois a equipe não demonstrou um bom futebol na preparação. O time de 86 também jogava no 4-4-2, mas quanta diferença, Júnior saiu da lateral para o meio, nossa zaga foi de Júlio César e Edinho, fisicamente mais forte do que a de 82, e tivemos dois volantes com mais força física e menos capacidade de sair jogando, Elzo e Alemão, ganhamos na marcação, mas perdemos e muito na arte e na beleza do jogo. Ademais, Sócrates já não era mais o mesmo, e Zico, criminosamente machucado por um zagueiro do Bangu, estava meia-boca. Mas, Careca estava de volta ao ataque e em forma, com seu inseparável companheiro de São Paulo, e também craque de bola Muller. Durante a preparação, perdemos Leandro e Renato por indisciplina.

Não jogamos um futebol de encantar, mas nosso futebol não era de se jogar fora, numa Copa marcada por diversas seleções de primeiríssima classe, como  esquecer da Dinamáquina de Laudrup, da França de Platini, Giresse e Tigana; da Argentina de Maradona; e da pragmática Alemanha de Rummenigge.

Perdemos para a França, sempre ela, em um jogo equilibrado e que poderíamos ter ganho, mas Zico, para sacramentar o estigma de perdedor para os defensores dos títulos como métrica para o futebol, perdeu o pênalti. Nossa seleção não marcou época, mas também não deu vexame.

90- era melhor pular. Foram anos confusos e de péssimo futebol Carlos Alberto Silva e Evaristo passaram pela seleção, mas quem foi o escolhido para a Copa, após Abel perder o título nacional para o Bahia, foi Lazaronni. Depois de uma boa fase final na Copa América de 89, quando brilharam Mazinho, Bebeto e Romário, fomos para a Copa. Lazaronni   "europizou" de vez o futebol brasileiro e foi de 3-5-2. Particularmente, gosto deste esquema de jogo, mas nosso treinador não foi capaz de passar o mesmo para os atletas, e olhe que tínhamos 3 grandes zagueiros Mauro Galvão, e os Ricardos, Rocha e Gomes. Do meio para frente, tínhamos um bom ataque, mas o meio, mesmo com bons jogadores (Dunga, Alemão, Valdo, Silas), não rendeu e, como consequência, nosso ataque não produziu.

Nosso futebol na primeira fase foi pífio, rídiculo, para dizer o mínimo. Fizemos uma grande partida contra a Argentina, perdemos gol à rodo, Muller, de novo companheiro de Careca, Romário tinha se contundido antes da Copa, mostrou como se faz para desperdiçar gol. Perdemos num lance genial de Maradona, que deixou a ver navios nossos dois volantes e os 3 zagueiros. 

Como já disse, Dunga foi escolhido como o símbolo do nosso vexame, na minha opinião injustamente.

94- para o lugar de Lazaronni veio Falcão, mas durou pouco, mas foi o responsável por fazer a renovação e revelar bons jogadores como Mauro Silva e Raí. Trouxemos de volta Parreira, mais maduro do que na década de 80, que foi um grande condutor para o título pois soube entender a carência de bons meias e teve coragem de apostar em um esquema que feria a tradição ofensiva do nosso futebol. Já eram 24 anos sem ganhar, por isto Parreira foi com um tradicional 4-4-2, depositando todas as esperanças em Romário e Bebeto, os dois não decepcionaram e o caneco veio. 

Destaco que tínhamos um grande goleiro Tafarel, o melhor da posição que vi jogar no Brasil; um puta lateral direito, Jorginho; um zagueiro de bom nível, Aldair, e outro meeiro, Márcio Santos; na LE tínhamos Leonardo e depois Branco, dois bons jogadores, cada um no seu estilo. Nosso meio era formado por 2 volantes, Mauro Silva, um rottweiler na marcação, e Dunga, bom na marcação e na saída de bola; tinha também Zinho enceradeira, para ajudar na marcação e cadenciar e prender a bola quando necessário; por fim, Parreira insistiu com Raí, mas nosso 10 estava sem ritmo, pois tinha acabado de trocar o São Paulo pelo PSG e não tinha se adaptado ao futebol francês, assim entrou Mazinho, que fazia pela direita o mesmo papel de Zinho, só que com mais velocidade. 

Decididamente, ganhamos, mas nosso futebol foi pragmático e feio em vários momentos, nossa maior preocupação não era jogar, mas impedi o adversário de jogar, o que tivemos bastante êxito, com exceção do apagão de 10 minutos contra a forte Holanda. O sacrifício para empatar e ganhar da Suécia marca o estilo de jogo daquele time, na minha opinião.

98-  o título de 94 floresceu nosso futebol e surgiram bons nomes como Rivaldo, Juninho, Roberto Carlos, Zé Roberto, e Edmundo, e outros se consolidaram como Ronaldo e Cafu. Zagalo, o da "vocês vão ter de me engolir" fez um grupo vencedor, mas irregular, por isto o famoso desabafo. Na Copa, a irregularidade persistiu, assim fizemos partidas memoráveis como a goleada no Chile e a semi com a Holanda; e outras ruins, como a derrota para a Noruega e a final contra a França, olha ela de novo. 

O time jogava no 4-4-2, mas Zagalo gostava de falar no nº1, pois os 4 do meio formavam um losango, e o meia mais avançado, Rivaldo na Copa, encostava nos atacantes, Ronaldo e Bebeto, era para ser Romário, mas foi cortado.

Elenco com alguns jogadores excepcionais, mas no máximo um bom time.

2002- outro período de turbulência, Luxemburgo e Leão fracassaram, e Felipão assumiu como Salvador. Durante as eliminatórias, o Brasil foi muito irregular, só garantiu a classificação no final contra a Venezuela em São Luis, 2x0 com Luisão carimbando o passaporte. Felipão teve de recorrer a Marcelinho PB, Edílson e Luizão nas eliminatórias, mas na hora do vamos ver, foi de R 10, R 9 e Rivaldo.

Felipão armou um falso 3-5-2, uma vez que Edmilson jogava mais como volante do que de líbero. Na 1ª fase foi com Juninho de meia, mas a partir das oitavas, colocou Klebérson para ajudar Gilberto Silva na marcação. Na frente o trio de Rs brilhou e garantiu o título.

2006 - inauguramos a era de ganhar o torneio início e fracassar no campeonato, ou se lambuzar com a entrada e se engasgar com o prato principal. Parreira assumiu a seleção e deu show com o quarteto fantástico na Copa das Confederações, porém na Copa, perdeu a mão, o grupo e a seleção fracassou.

Entendo que Parreira cometeu um grande erro, o quarteto que brilhou em 2005 era formado por R 10, Kaká, Robinho e Adriano, na Copa ele colocou R 9 com o Imperador, o time perdeu a mobilidade e as jogadas pelas pontas. No mais, alguns jogadores estavam mais preocupados com seus recordes pessoais, deixando o coletivo de lado.

2010- após a farra de 2006, veio a dupla Dunga e Jorginho. O time nunca caiu na graça da torcida, pois engolia um leão e se engasgava com um gatinho. A seleção foi formada para jogar no contrataque puxado por Kaká e Robinho, mas era incapaz de furar uma retranca.

Ganhamos várias vezes da Argentina e de grandes europeus com resultados expressivos, mas na Copa, perdemos para a Holanda apos terminar o primeiro tempo vencendo.

Entendo que Dunga mais uma vez foi injustiçado, pois fez um bom papel, mas seu jeito ranzinza e a burrice de não levar Neymar e Ganso, ambos brilhando no Santos, para levar Klebérson e Grafite, definiram sua imagem junto ao torcedor.

2014- outro período conturbado, Mano assumiu e patinou por muito tempo, quando acertou a mão, foi substituído por Felipão. Fomos feras na Copa das Confederações, formamos a nova família Felipão, mas na Copa, a fragilidade de nossa equipe ficou exposta. Pela primeira vez, o Brasil era totalmente dependente de um só jogador, Neymar, e isto nos custou caro, mesmo jogando em casa.

A Copa entrou para a nossa história, mas não pelo bom futebol, mas pelo vexaminoso 7x1.

Terminando com o início, penso que além do bom futebol, outros fatores contribuem para a seleção de 82 permanecer no imaginário popular, entre eles:


  1. a seleção era formada por jogadores que atuavam no Brasil e eram ídolos em seus clubes, somente Falcão era "estrangeiro", mas já era tri campeão brasileiro pelo Inter;
  2. os amistosos eram disputados no Brasil, o que proporcionava aproximação com a galera;
  3. foi o primeiro grande time após o de 70, já que me 74 e 78 as seleções jogaram feio, apesar de contar com bons jogadores;
  4. a seleção deu show nos anos anteriores da Copa, ganhamos vários amistosos na Europa e fomos vice no Mundialito do Uruguai com direito a goleada na Alemanha;
  5. a derrota foi em um jogo memorável, com nosso time lutando até o fim, quando Zoff pegou uma cabeçada no chão e decretou nossa sofrida derrota.


Desculpem o longo texto, mas precisava de espaço para expor meu ponto de vista.

3 comentários:

  1. Em 2010 não foi só a ausência de Neymar e Ganso, o Dunga convocou o Felipe Melo contra a opinião da maioria, que achava que em algum momento ele ia perder a cabeça e isso aconteceu exatamente no jogo contra a Holanda, dessa forma entendo que o Dunga não foi injustiçado.
    A melhor seleção brasileira que vi jogar também foi a de 1982, se ela não ganhou a Copa do Mundo azar da Copa, já escreveu Juca Kfouri.

    ResponderExcluir
  2. A seleção de 82 foi a melhor que vi jogar também. Apenas dois jogadores titulares destoavam dos demais e acredito que Telê foi um pouco cabeça-dura em mantê-los na equipe.

    Um foi o instável goleiro Valdir Peres. Telê não levou o nosso melhor goleiro na época, Leão, por birra. Tivemos Paulo Sérgio e Carlos como reservas e vivendo grande fase no Botafogo e na Ponte Preta respectivamente. Já no jogo inicial, Valdir Peres mostrou toda irregularidade que viveu na Copa ao tomar um frango ridículo contra a Rússia. Acredito que, se Telê optasse por um dos 3 goleiros que citei, estaríamos melhor servidos na posição.

    O outro jogador foi Serginho Chulapa. Tínhamos os dois melhores centroavantes (Reinaldo e Careca) que já vi jogar antes de Romário e Ronaldo. Uma pena os dois estarem machucados e não disputarem aquela Copa. Reinaldo nem foi convocado porque zagueiros carniceiros quebraram os dois joelhos dele. Careca foi cortado já na fase de preparação. Roberto Dinamite foi convocado para o seu lugar e, na minha opinião, deveria ser mais aproveitado durante a Copa. Apesar de Serginho fazer o papel de pivô muito bem e ser um goleador nato, Roberto Dinamite era mais jogador e se adequaria melhor ao estilo de jogo de muita movimentação e técnica diferenciada do time.

    Depois da seleção de 82, eu só me empolguei e torci fervorosamente para o Brasil em dois momentos: Copa América de 1989 e Copa do Mundo de 1994. Coincidentemente, ambas oportunidades tinham um craque decisivo e em grande fase: Romário.

    ResponderExcluir
  3. Concordo com a opinião de Falcão. A seleção de 1982 jogou para a história.

    ResponderExcluir

Prezados leitores, todos os comentários são bem vindos e enriquecerão as discussões. Entretanto, solicito moderação, evitando termos agressivos e acusações sobre jogadores, comissão técnica e direção do Esquadrão.
Solicito também respeito aos demais leitores, não sendo permitido postar xingamentos.
Os comentários que não atenderem as recomendações acima não serão aprovados.