Marca SóBahêa

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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Negro Drama

Tirei umas férias aqui do blog, pois ficar comentando sobre suposições ou sobre dirigentes não é minha praia. Mas, hoje recebi por zap o link (http://www.copaesportes.com.br/futebol/negro-drama), com um texto de Renê Júnior. O Texto é simplesmente de f..., seria muito egoísmo ler este belo relato de vida e guardar somente para mim, por isto reproduzo na íntegra o texto aqui no blog. 

Na hora que li o texto, me veio em mente outra canção, A Estrada, mas esta é do Cidade Negra, da qual reproduzo o primeiro verso na sequência. Aqui cabe uma reflexão, parte dos atletas profissionais de futebol possuem trajetória de vida muito similar a de Renê, será que é justo serem vaiados e execrados por simples erros, como se fosse máquinas e não humanos como os que estão nas arquibancadas.


Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei

Parabéns a Renê pela história de vida e belo relato, reproduzido abaixo. 




Negro drama
Entre o sucesso e a lama
Dinheiro, problemas
Inveja, luxo, fama

Você já ouviu falar no Complexo da Maré, não é? Um bairro que integra diversas comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro. Na Maré, mora gente que batalha duro todos os dias para levar comida para dentro de casa. Favelas que formam caráter e que transformam a vida de qualquer pessoa.

Foi na Maré que aprendi a ser homem, parceiro.

Para quem vive na favela, ganhar o mundo é fichinha. Lá você entende que o mundo é para quem sabe viver. Eu vi muita gente se perder na droga, no tráfico, na vida de bandido. Já dormi e acordei ouvindo troca de tiros pela janela do quarto. Cansei de ver a polícia invadir o morro para caçar traficante. A malandragem era o drible que os moleques davam nos problemas. Muitos ficaram no meio do caminho.

Sempre fui bem sossegado. Meus pais nunca deixaram faltar o arroz e feijão de cada dia, apesar de não termos nenhum tipo de luxo. E nem precisava, sinceramente. Bastava uma bola para a gente fazer a festa. A velha pelada no Morro do Timbau, Baixa do Sapateiro, Marcílio Dias, Parque União, Praia de Ramos. Um mergulho no piscinão e um sorvete na praça. O mundo estava feito.

Ainda moleque, me mudei para a Vila Kennedy. Longe viu, parceiro? Saí da Zona Norte para a Zona Oeste, ali pertinho do clube do Bangu. Os problemas eram os mesmos de sempre, e as soluções sabíamos de cor.

Encarar o drama, lógico.
Periferias, vielas e cortiços
Você deve estar pensando
O que você tem a ver com isso
Vou avançar no tempo para você entender.

Morei na China por dois anos. Joguei no Guangzhou Evergrande, um dos maiores times do país. Uma cultura totalmente diferente da nossa. Lá, a adaptação é difícil e o futebol ainda engatinhava quando fui contratado, em 2014. O nível não é igual ao do Brasil. Me lesionei e fiquei um tempinho parado.

Nesse período, rompi com meu empresário. Eu achava que precisava dar um rumo diferente à minha carreira. Esse cara, talvez sem aceitar minha decisão, começou a me difamar no Brasil. Espalhava para os clubes interessados em mim que eu era um jogador “bichado”, e que não iria mais atuar em alto nível. Sacanagem, para não dizer outra palavra mais pesada.

Quando voltei da China, tive umas cinco propostas de clubes brasileiros. Só que as informações que eles tinham de mim eram as piores possíveis. Esse empresário tratou de manchar um currículo que foi construído com muito suor. Nunca pisei em ninguém para conseguir minhas coisas, e por isso me sentia o maior injustiçado do planeta.

Sente o drama
O preço, a cobrança
No amor, no ódio
A insana vingança

Sempre fui um cara que não precisava dar resposta pra ninguém. Como diz Mano Brown, dos Racionais MCs, “o fraco não tem espaço e o covarde morre sem tentar”.

Vamos voltar para a Vila Kennedy...

Minha vida no futebol sempre foi jogando em favelas. Nunca tive a chance de ser formado numa divisão de base. Meu negócio era se divertir, até que a parada ficou bem séria depois que completei 16 anos.

Uns olheiros me viram jogar no terrão e me levaram para o time da faculdade Estácio de Sá. Foi minha primeira experiência com um futebol mais organizado, saca? Tinha hora para treinar, hora para comer, nutricionista, médico, fisioterapia. Outro mundo.

Um ano depois, fui jogar no Madureira. Continuava morando na Vila Kennedy, e a violência só aumentava. Você acredita que faltei a um treino por causa de um tiroteio na favela? Não tinha como sair de casa, irmão. Deitava no chão com medo de receber uma bala perdida. Eu já tinha 20 anos, e minha realidade ainda era a de muitos outros moleques que tentavam uma vida melhor. Eu não poderia morrer sem tentar.

O Madureira me ajudou a conhecer outro mundo, longe das favelas do Rio. Fui para Santa Catarina, depois Minas Gerais, Pernambuco e interior de São Paulo. Parei em Campinas. A Ponte Preta, clube tradicional no Brasil, queria contar comigo. Fui muito feliz na Macaca. O tempo passava e as coisas só melhoravam. Quando dei por mim, estava no Santos de Neymar.

São poucos
Que entram em campo pra vencer
A alma guarda
O que a mente tenta esquecer


Tudo o que faço na minha carreira é pensando na minha família. Parceiro, eu conheci minha mulher com 16 anos. Como não dar valor? Ela esteve comigo em todos esses perrengues. Temos duas filhas maravilhosas, fruto de um amor que é maior que qualquer final de campeonato.

E vamos para a China.

Ganhamos a Super Liga com o Guangzhou duas vezes. Mesmo sendo volante e sofrendo com o rigor tático dos chineses, guardei uns golzinhos por lá. Para quem jogou nos terrões da favela, estar do outro lado do mundo era mole, mole. Que mané dificuldade, rapaz! Negócio ruim é se esconder de tiroteio.

Acabei me lesionando. Fiquei de fora do time por várias e várias semanas, no mesmo período em que aquele cara começou a espalhar inverdades no Brasil. A Ponte Preta foi a única que acreditou em mim, e foi para Campinas que escolhi voltar.

Olho pra trás
Vejo a estrada que eu trilhei
Mó cota
Quem teve lado a lado
E quem só fico na bota

Eu sabia que seria difícil recuperar meu espaço, já que a Ponte estava bem arrumadinha com Eduardo Baptista. Aceitei reencontrar o professor Guto Ferreira no Bahia e recomeçar de vez minha carreira no Brasil. O caminho é duro, mas eu sabia que, na hora certa, iria render o que esperavam de mim.

Pô, o Guto é um cara nota mil. Sabe tratar um atleta como poucos treinadores sabem. Já me conhecia desde os tempos da Ponte. Cheguei a Salvador e, em pouco tempo, já me sentia em casa. Também pudera... essa cidade lembra em muitas coisas o meu Rio de Janeiro. Mesmo com todo o caos, é encantadora.

O Bahia é um time foda.

Levar esse clube de volta para a Série A era o mínimo que eu poderia fazer para retribuir tudo o que eles fizeram e fazem por mim. Dei a volta por cima. Ganhei confiança dos companheiros e carinho de milhões de torcedores. Aquela pessoa deve estar com a língua toda queimada, não é não?

Volto um pouco no tempo e me lembro de maio de 2017. Fonte Nova lotada. A torcida do Bahia é fora de série, cara. Do outro lado, o Sport, outro time grande. Era a final da Copa do Nordeste e eu estava prestes a conquistar o meu título mais importante no Brasil. Quando Edigar Junio fez 1 a 0, já sabia que ninguém tirava aquele título da gente. O torcedor tricolor não iria deixar.

Saí de campo aos 19 minutos do segundo tempo. Guto ficou preocupado com a arbitragem, que já tinha expulsado um jogador deles. Como eu levei um cartão amarelo, ele colocou Juninho no meu lugar. O professor não sabia, mas ele havia me dado um presente.

Ouvir a Fonte Nova abarrotada de pessoas gritando o seu nome não tem preço, parceiro.
  

Que Deus me guarde
Pois eu sei
Que ele não é neutro
Vigia os rico
Mas ama os que vem do gueto

O juizão apitou o fim do jogo, e eu chorei. Nem pensei em quem quis o meu mal. Na minha cabeça só vinha a minha preta e as crianças. São por elas que dou a vida em todas as divididas. São por elas que tenho que correr e dar orgulho. Falador, você já sabe, né? Passa mal.

Eu já me considero um vencedor nesse mundo tão cruel. Vesti a camisa do Bahia com prazer e dedicação, dou orgulho para minha família e amigos, e continuarei seguindo firme nesta vida de grandes emoções.

Mas aê,
Se tiver que voltar pra favela
Eu vou voltar de cabeça erguida
Porque assim é que é
Renascendo das cinzas
Firme e forte, guerreiro de fé



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