Marca SóBahêa

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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

“Navegar é preciso, viver não é preciso”

Acho que já recorri a este fado brilhantemente interpretado por Caetano Veloso em outros textos, mas nunca é demais utilizar a genialidade alheia, neste caso o poeta português Fernando Pessoa, como fonte de inspiração.  Traduzo esta frase para usá-la no futebol como “Gerir é preciso, contratar não é preciso”. De cara, é preciso deixar claro que o termo preciso não é utilizado no sentido de necessidade, uma vez que gerir e contratar são condições básicas para um clube de futebol existir. O termo é usado no sentido de precisão, gerir por mais difícil que seja, é um equilíbrio entre receitas e despesas, aperta daqui folga dali e se consegue obter o resultado esperado ou algo próximo. Por sua vez, contratar não é bem por aí, nem sempre trazer uma estrela é sinal de sucesso ou trazer um desconhecido é sinal de fracasso.

Ano passado, o caso de sucesso no Brasil foi o Flamengo, conseguiu juntar um puta ajustes nas contas, iniciado por Bandeira de Melo, com uma precisão cirúrgica nas contratações, mais de meio time chegou e Jorge Jesus fez o time voar. Ouvi muito dos torcedores do Bahia que este era o caminho a ser seguido, e concordo com esta galera. Mas, é preciso ponderar que este sucesso do Flamengo não veio de uma hora para outra, e que eles precisaram tomar muito na cabeça para entender que a gestão era tão necessária como a contração de astros, quem não se lembra do fracasso do ataque dos sonhos – Edmundo, Romário e Sávio – ou da icônica frase de Vampeta “eles fingem que me pagam, eu finjo que jogo”. Em suma, o Flamengo só passou a dominar o cenário quando entendeu a importância da gestão e foi feliz nas contratações. Mas, o mesmo Flamengo serve de exemplo para mostrar que contratar não é preciso, este ano trouxeram vários jogadores, até o momento, só Pedro e Islas disseram a que veio, olha a imprecisão da contratação aí.

Este ano, o caso de sucesso é o Santos, porém numa realidade totalmente distinta à do Flamengo. Clube cheio de dívidas, com poucas contratações, mas que está arrebentando em campo.  Muito por causa da base, coisa que o Santos é mestre, lembro que grandes estrelas do tricolor - Douglas, Fito, Léo Oliveira e Osni - passaram pela base santista. Mas, este modelo do Santos não é sustentável, basta ver a situação do Cruzeiro, bicampeão brasileiro e da Copa do Brasil nesta década, hoje penando na série B e com um risco grande de insolvência financeira, mesmo tendo uma imensa torcida.

E o Bahia com isto? O Bahia 2020 é a expressão viva que gerir é preciso, contratar não. O Bahia teve perdas gigantes na sua arrecadação, inclusive no programa de sócios, uma das vitrines da gestão GB, mas apertando daqui, parcelando dali, e negociando acolá vai conseguindo manter as contas equilibradas. Por outro lado, a nossa imprecisão nas contratações foi monstruosa, dos contratados no início do ano, só Daniel caiu nas graças da torcida, até o badalado Rodriguinho não é nem sombra do que jogou recentemente em outros clubes. E estes desacertos na formação do elenco se refletem claramente no resultado em campo.

Gosto da política adotada desde a democratização do clube no sentido de equilibrar as contas e tornar o Bahia um clube viável, o que não éramos na primeira década dos anos 2000, quando o bi do Nordeste mascarou uma situação calamitosa administrativamente falando, o que nos levou a ficar 5 anos na B e 2 anos na C.

Por outro lado, como torcedor quero mais resultado em campo, difícil se contentar apenas com a hegemonia estadual, até pelo péssimo momento que passa o segundo clube do estado, outro que esqueceu que sair contratando a torto e à direito não é garantia de sucesso e pode quebrar o clube. Queria no mínimo a hegemonia regional, sempre exalto nossos bons números na CNE nos últimos anos, mas é preciso título para fazer a máxima que o Bahia é o maior do Nordeste. No nível nacional, a decepção ainda é maior, não tem como se conformar com a briga pelo rebaixamento no ano de nosso maior orçamento. A DE cometeu erros primários desde 2019 e estamos pagando o preço agora e pagaremos em 2021, pois não saber em qual série est aremos tem prejudicado o planejamento do clube. No continental, entendo que chegou a hora de ir mais além, não dá para se contentar com as quartas como topo na Sula.

Por fim, acho que o Bahia continua trilhando um bom caminho na parte administrativa, Athlético e Flamengo demonstram bem que o caminho é este pelos bons resultados obtidos, Vasco, Botafogo e Cruzeiro também, mas pelos recorrentes fracassos. Contudo, em campo o Bahia precisa crescer, temos de aprender com o Santos como revelar e, principalmente, aproveitar as joias oriundas da base, cadê as escolinhas prometidas por MS? Temos também de melhorar nossa capacidade de fazer um diagnóstico do nosso elenco, o maior erro da DE neste fracasso de 2020 foi a manutenção de uma espinha dorsal que já não dava liga, e temo pelas últimas notícias sobre renovações que este erro se repita. Por fim, temos de desenvolver técnicas para diminuir a imprecisão nas contratações para o time principal, nosso lençol é curto, não dá para gastar em jogadores que nem sequer foram aproveitados como Wanderson, para ficar em um exemplo.

Nada do descrito no parágrafo anterior é fácil, mas também não é impossível, está na hora de se definir qual o estilo de jogo que será adotado pelo time principal, um time que jogue para frente como sonha a torcida, ou reativo como insiste em mostrar a nossa realidade nos campeonatos nacionais, a partir daí se faz um diagnóstico do que se tem e contrata peças que se encaixem neste esquema, inclusive o treinador, mas para isto é preciso  qualificar os profissionais que trabalham na captação de profissionais para o time principal. Por fim chegou a hora de retomar a ousadia de MS no aproveitamento da base quando foram lançados diversos jogadores como Jean, Róbson, Capixaba Rômulo e Zé Roberto. Na gestão GB, diversos jogadores fora m liberados na base sem sequer sentir o gosto de vestir a camisa do time principal, se continuar assim, acaba com a base e fica só com o sub-23.

No mais, é torcer e ter fé sempre que dias melhores virão em campo.

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