Marca SóBahêa

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Crônica de uma queda anunciada

Por ironia ou não do destino acabei de reler esta semana Crônica de uma morte anunciada, famoso romance de Gabriel Garcia Marquez, condecorado escritor colombiano que venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. A história narra o assassinato de Santiago Nasar pelos gêmeos Pedro e Pablo Vicário que anunciam para quem quiser ouvir que irão assassinar Santiago. Os avisos dos gêmeos soam como súplicas para quem alguém impeça a tragédia que está por vir, mas por negligência, omissão, insolência, erro de avaliação, decisões erradas ou, simplesmente, descaso ninguém consegue evitar a tragédia que ocorre na frente de boa parte da população da pequena vila.

Pois bem, desde o segundo turno de 2019 que o Bahia foi avisado que se vacilasse na Série A iria passar uma temporada na B, este aviso foi reiterado por toda a temporada de 2020 e novamente na de 2021, mas por negligência, omissão, insolência, erro de avaliação, decisões erradas ou, simplesmente, descaso ninguém conseguiu evitar a tragédia que ocorreu ontem à noite no Castelão na derrota por 2x1 para o Fortaleza. Abro logo um parêntese para parabenizar nosso coirmão nordestino que fez uma Série A digna e muita acima das expectativas, mas principalmente por ter honrado seu torcedor na noite de ontem ao levar a partida a sério, diferentemente de vários outros times que entraram com reservas, sub-20 ou mistões. Um salve ao Leão do Pici.

Voltando ao Bahia, fizemos uma campanha de rebaixado no segundo turno de 2019, mas a DE não só manteve Roger durante todo o período, como manteve o treinador e a base do elenco para 2020, erro crasso que começa a explicar o rebaixamento de ontem. Alguns erros têm efeitos no momento que acontecem e depois passam, outras deixam consequência por muito tempo, a manutenção de Roger e da base do elenco que fracassou na A de 2019 é daqueles que deixam efeitos que se perpetuam no tempo, não ficam lá atrás como aprendizado. A manutenção de Roger passou para muitos, em especial aos jogadores, a impressão que o Bahia é um clube que aceita de boa os resultados negativos, que perder faz parte, e que frustrar as expectativas dos torcedores está dentro do esperado. Vimos o Fluminense este ano tirar Roger quando começou a desandar e acabou indo para Libertadores com Marcão.

Somos um time médio no cenário nacional, nada menos ou nada mais do que isto, assim temos de minimizar nossos erros, mas a DE insiste em alguns, como a tolerância com maus resultados, Mano, veio substituir Roger, precisou de oito ou nove derrotas seguidas e a eliminação na Sula para ser retirado do cargo, não se pode esperar tanto. Situação muito similar com a de Dado em 2021.

A vinda de Dabove foi um erro que beira o amadorismo e a insolência de quem acha que sabe e pode tudo, um time que se diz profissional não pode se dar ao luxo de contratar um treinador sem conhecer seus métodos de trabalho e sua filosofia de jogo, apenas por ser modismo no país contratar técnicos estrangeiros. Quem acompanha o Sóbahea sabe que na segunda ou terceira partida sob o comando de Dabove falei aqui que ele não teria vida longa, pois o torcedor tricolor não aceitaria aquele 4-2-4 e aquela recusa de ficar coma bola.


Foto: Kely Pereira/AGIF

Guto veio e nos deu esperança, mas Guto tem suas convicções e uma delas é jogar com volantes que se impõem fisicamente, o que não seria possível com nosso elenco formado com volantes com outras características. Para mim, Guto é o menos culpado, apesar das péssimas partidas contra Cuiabá, Sport e Atlético/GO, nesta queda.

Mas, não foi só nos treinadores que a DE errou, depois de reiteradas críticas da torcida, ocorreu uma reformulação do departamento de futebol, saiu Cerri e chegaram dois diretores para seu lugar. Contudo, continuamos contratando diversos jogadores que nada acrescentaram ao elenco, situação esta que se repete desde 2019. Bato de novo na mesma tecla, clube de nosso porte não pode se dar ao luxo de errar tanto. Não é possível que o DADE tricolor não consiga achar jogadores melhores e até mais baratos do que os que contratamos.

Tem um erro recorrente da DE que me preocupa muito para o futuro do nosso clube, o abandono da base tricolor, entenda como base do sub-20 para baixo, para priorizar o sub 23. É inegável que tivemos acertos nesta estratégia, ontem tinham titulares frutos das contratações para o sub-23, mas é um número pequeno comparado ao que se contrata. Sou totalmente favorável ao uso do sub-23 no Baiano, mas o elenco tem de ser formado majoritariamente por jogadores oriundos do sub-20 e sub-17 do clube, não é o que vemos, a maioria vem de fora e sem nenhuma identificação com o clube. Acompanho sempre que posso os jogos do sub-20, na boa, dá pena, a qualidade é muito baixa, e os resultados ridículos, 19º no Brasileiro e eliminado na primeira fase da Copa Nordeste. Da onde vamos tirar jogador agora que o cofre secou? Da base que venho acompanhando, esquece.

Acho que temos uma boa dose de razão quando falamos que a arbitragem prejudicou o Bahia e contribuiu para nosso rebaixamento, alguns erros beiraram a má fé, isto é fato. Mas, um time que acumula derrotas em casa contra times de seu nível ou até abaixo e que toma vários gols nos acréscimos do segundo tempo, perdendo pontos preciosos, não tem moral para usar a arbitragem como desculpa para seu fracasso. Detalhe, nenhuma dessas derrotas ou gols nos finais das partidas ocorreram por erro de arbitragem, mas sim por incompetência de nossos atacantes, inoperância de nosso meio e falhas bisonhas de nossa defesa.

Sobre o jogo de ontem, muito pouco a falar,  achamos um pênalti e tivemos a chance de matar depois de abrir 1x0, mas o medo de perder tirou toda a vontade de ganhar, fomos um time covarde que não soube aproveitar o momento, um retrato do que fomos no campeonato, quando várias vezes tivemos a chance de ir para a primeira página, mas entrávamos em campo como se fosse um baba sem nenhuma importância.

Por fim, não gosto de personalizar minha críticas, todos ganham e todos perdem, futebol é um esporte coletivo, mas não tenho como deixar de comentar que GB é merecedor de quase todas as críticas que se fazem a ele, quase porque sou intolerante às críticas sobre as ações afirmativas, pois no momento que ele aceitou ter seu nome especulado como candidato à cargos eletivos, passando a impressão que usava o Bahia como trampolim para isso, se pôs na berlinda e virou vidraça de forma merecida. Contudo, já escrevi aqui reiteradamente que sou Bahia acima de qualquer pessoa que esteja no clube, seja como dirigente, jogador ou técnico, só quero saber que em 2022 é hora de seguir os conselhos de Beth Carvalho “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. BBMP sempre.

2 comentários:

  1. Texto excelente. Parabéns, Miguel

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  2. Texto notável.
    Exatamente isso que está posto.
    O Bahêa não foi rebaixado ontem, no jogo com o Fortaleza. Foi rebaixado em 2019. E se quisermos ser generosos é possível então dizer que o rebaixamento começou na 1ª rodada desse campeonato e seguiu assim por todas as demais.
    Quem não busca a soma de pontos a cada jogo, não pode se lamentar no final.
    Enfim, torcer para que o retorno seja logo no campeonato em seguida. E a Série B é sempre muito difícil.
    Saudações tricolores.
    Nilton Correia

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